O desafio que me foi proposto nesta semana teológica é o de apresentar o meu entendimento sobre a doutrina bíblica da predestinação. Quero deixar bem claro que não quero levantar polêmicas pessoais ou magoar quem quer que pense diferente da posição que defendo aqui neste paper.
Acima de tudo, sou um cristão que busca viver de maneira coerente com os ensinamentos da Palavra de Deus e que sabe que o termo predestinação suscita polêmica. Então, porque abordar um tema tão delicado? Não é melhor nos fixarmos naquilo que é essencial e não no que pode nos dividir? Penso que nós, como estudantes de teologia, não podemos nos furtar de analisar profundamente este tema. Temos que definir bem a nossa posição, mesmo que seja discordante daquela adotada por este trabalho.
As principais questões que nos são apresentadas: Deus, desde toda a eternidade, pré-ordenou todas as coisas que vieram e que virão a acontecer? Se sim, que evidência disto nós temos, e como pode o fato ser consistente com o livre arbítrio das criaturas racionais e com a Suas próprias perfeições? Se fomos predestinados, onde fica a nossa responsabilidade pessoal? Não seria Deus injusto ao decretar que algumas pessoas seriam salvas, enquanto que outras permaneceriam nos seus pecados e estariam perdidas para sempre?
O que vai ser discutido neste trabalho é a clássica oposição entre a Vontade Humana e a Determinação Divina. Durante a época da reforma, Martinho Lutero e Desidério Erasmo, o grande humanista católico, se enfrentaram num debate escrito sobre este tema. Após ser pressionado para apresentar uma resposta à teologia reformada, Erasmo escreveu um livro, Do Livre Arbítrio, que foi uma refutação a teologia monergística luterana, nesta obra ele defendeu a Livre Vontade do ser humano como força cooperadora para a salvação. Lutero, por sua vez, retrucou dizendo:
Eu o parabenizo Erasmo, porque você sozinho, ao contrário dos outros, atacou a coisa certa, isto é, o problema essencial. Você não me tem entediado com aquelas divagações sobre papado, purgatório, indulgências e coisas assim, tolices em vez de problemas. Você e só você tem visto o ponto para onde tudo converge, direcionando para um foco de vida.
 
A resposta de Lutero para Erasmo reafirmou a posição bíblica da predestinação.
 
Definindo os conceitos
O cristianismo moderno adaptou muitos conceitos pagãos e antibíblicos em sua constituição doutrinária e o tópico da predestinação não escapou. É necessário apresentar as definições bíblicas que eu aceito sobre cada um destes tópicos. Assim, entendo a Predestinação como sendo: O aspecto da pré-ordenação de Deus, através do qual a salvação do crente é considerada efetuada de acordo com a vontade de Deus, que o chamou e o elegeu em Cristo, para a vida eterna, sendo a sua aceitação voluntária, da pessoa e do sacrifício de Cristo, uma conseqüência desta eleição e do trabalho do Espírito Santo, que efetiva esta eleição, tocando em seu coração e abrindo-lhe os olhos para as coisas espirituais.
Segundo o pensamento popular, livre-arbítrio significa a capacidade dos ser humano de executar ações aleatórias, indeterminadas, sem nenhum enquadramento em um modelo de comportamento ou força exterior. A capacidade interna, do seres humanos, de escolher e determinar alternativas a partir de sua própria vontade.
Porém, entendo que a definição bíblica de livre-arbítrio é diferente do pensamento popular. Livre-Arbítrio deve ser compreendido como o poder de livremente escolher o que mais preferimos ou desejamos (de acordo com nossa natureza ou predisposição). Por isto o não regenerado ou homem natural, que é por natureza hostil a Deus, ama o pecado e, portanto, aparte da graça da regeneração, não buscará a Deus nos termos de Deus (1 Co 2:14, Rm 8:7). Ele ira invariavelmente usar seu "livre-arbítrio" para suprimir e escapar da verdade de Deus (Rm 1:18).
Ao regenerado (aquele que o Espírito vivificou), por outro lado, é dada uma disposição restaurada pela qual ele tem novos desejos e afeições por Deus. Dessa forma, nossa hostilidade natural para com Deus é removida e assim, nós livremente exercemos nossa vontade para confiar em Jesus, que agora é o alvo de nossa suprema afeição.
O gráfico abaixo é um modelo teológico do homem nos seus quatro estados: o homem no estado de inocência (pré-queda), o homem no estado de escravidão (pós-queda), o homem no estado de graça (homem regenerado) e o homem no estado de glória (na presença de Deus). Antes da Queda, o homem era capaz de pecar e de não pecar. Caído, o homem não regenerado não era capaz de não pecar. Caído, mas regenerado, o homem é capaz de pecar e de não pecar. Glorificado, o homem não é capaz de pecar. Tanto a fé como os desejos de obediência brotam da nossa nova natureza, não da vontade do homem natural (João 1:13, Romanos 9:16, 1 Coríntios 2:14, João 6:63-65).
 
Estado do Homem na História
Moralmente Capaz de Fazer
Inclinado por Natureza para o
BEM
MAL
BEM
MAL
Criado
sim
sim
não
não
Caído
não
sim
não
sim
Redimido
sim
sim
sim
não
Glorificado
sim
não
sim 
não
 
Ao comentar as implicações do sentido popular do livre-arbítrio, o célebre pregador batista inglês, Charles Spurgeon, afirmou o seguinte:
De acordo com este esquema, o Senhor tem boas intenções, mas precisa aguardar como um servo, a iniciativa de sua criatura, para saber qual é a intenção dela. Deus quer o bem e o faria, mas não pode, por causa de um homem indisposto, o qual não deseja que sejam realizadas as boas coisas de Deus. O que os senhores fazem, senão destronar o Eterno e colocar em seu lugar a criatura caída, o homem ? Pois, de acordo com essa teoria, o homem aprova, e o que ele aprova torna-se o seu destino. Tem de existir um destino em algum lugar; ou é Deus ou é o homem quem decide. Se for Deus Quem decide, então Jeová se assenta soberano em seu trono de glória, e todas as hostes Lhe obedecem, e o mundo está seguro. Em caso contrário, os senhores colocam o homem em posição de dizer: "Eu quero" ou "Eu não quero. Se eu quiser, entro no céu; se quiser, desprezarei a graça de Deus. Se quiser, conquistarei o Espírito Santo, pois sou mais forte do que Deus e mais forte que a onipotência. Se eu decidir, tornarei ineficaz o sangue de Cristo, pois sou mais poderoso que o sangue, o sangue do próprio Filho de Deus. Embora Deus estipule Seu propósito, me rirei desse propósito; será o meu propósito que fará o dEle realizar-se ou não". Senhores, se isto não é ateísmo, é idolatria; é colocar o homem onde Deus deveria estar. Eu me retraio, com solene temor e horror, dessa doutrina que faz a maior das obras de Deus - a salvação do homem - depender da vontade da criatura, para que se realize ou não. Posso e hei de me gloriar neste texto da Palavra, em seu mais amplo sentido: "Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia" (Romanos 9:16).

Admito que as palavras de Spurgeon são contudentes e levantam os ânimos dos que pensam de maneira diferente, porém, elas devem incentivar a nossa definição em relação a um tema tão profundo. Não adianta fugir da questão, mas devemos nos posicionar. Apresento a seguir temos um diagrama com as diferentes alternativas, posições e algumas referências bíblicas, mostrando como podemos organizar os dados das Escrituras e até onde levam alguns pensamentos e deduções:
 


Afirmações Bíblicas sobre a Predestinação


A raça humana inteira está perdida no pecado e cada indivíduo está totalmente corrompido no intelecto, vontade e emoções pelo pecado. O ser humano é incapaz de responder à oferta divina de salvação porque está espiritualmente morto. Portanto, ninguém pode crer aparte da graça soberana e eficaz de Deus.

João 6:44; 8:47
Romanos 3:9-18; 8:7-8
1 Coríntios 2:14
Efésios 2:1-3
João 3:19-20

Deus pode trazer à fé quem quer que Ele deseje; a incredulidade não mantém Deus como refém nem destrona Sua soberana escolha de salvar uma pessoa. Sua graça salvadora é sempre eficaz quando Ele deseja que ela seja, todavia, ela não força alguém a vir para Cristo, mas faz com que ele venha voluntariamente.

Salmos 115:3
Isaías 55:11; 46:10
Romanos 8:30
Jó 42:2
João 5:21; 6:37-40, 44, 55, 64- 65; 18:37
Daniel 4:35

A salvação depende somente da vontade soberana de Deus, não do homem. Deus soberanamente escolhe quem salvar, aparte de qualquer condição encontrada no homem. Isto é chamado “eleição incondicional”. A eleição é uma expressão da vontade soberana de Deus e é a causa imediata da fé. A eleição é certamente eficaz para a salvação de todos os eleitos. Aqueles que Deus escolhe certamente chegarão à fé em Cristo. A eleição abrange toda a eternidade e é um decreto imutável.

Efésios 1:4-11 (observe especialmente os versos 5 e 11); 2:4; 10
Atos 13:48
João 1:13; 3:37; 8:47; 10:26; 15:16, 19; 17:2, 6, 9, 24
Romanos 8:28-30; 9:1-24
Romanos 9:15, 16; 11:4-8
Joel 2:32 (compare com Romanos 10:13)
1 Tessalonicenses 1:4
2 Tessalonicenses 2:13-14
2 Timóteo 1:9
Tito 1:1
Apocalipse 13:8; 17:8; 20:15
1 Coríntios 1:25-31
Tiago 2:5
Mateus 11:27-30


Deus é soberano em tudo o que faz e todas as coisas de acordo com sua vontade e prazer. Ele não tem de prestar contas ao ser humano, porque ele é o Criador e pode escolher a quem quer salvar.

João 6: 65
Tiago 1:18
1 Pedro 1:23
Atos 11:18; 16:14
Deuteronômio 30:6
Jeremias 32:39-40
Ezequiel 36:26-27
Romanos 9:20-21
 

Conclusão

A grande dificuldade que eu vejo com o entendimento da doutrina da predestinação está no intelecto humano. Não compreendemos a relação entre a justiça e a graça divina. De acordo com a Bíblia, a salvação não se fundamenta, de maneira alguma, no rígido princípio da justiça; pelo contrário, fundamenta- se no fato de ser ela o livramento da justiça. Se Deus tivesse resolvido exercer justiça para com os filhos caídos de Adão, nenhum deles pode- ria salvar-se. A justiça não é, em sentido algum, um fator determinante na salvação de nenhum homem. Se, portanto, Deus escolhe salvar alguns e não outros, conforme o provam os acontecimentos de cada dia, Ele ainda pode ser justo, como o seria, se não houvesse escolhido a ninguém da raça pecadora para a salvação.

O homem não é responsável por sua salvação, e sim pelos seus pecados. O pecado é uma violação do relacionamento entre o Criador e suas criaturas racionais, e este relacionamento constitui o princípio fundamental da responsabilidade do homem. Ele é um agente livre quanto à sua conduta como um ser racional e no final será julgado a respeito do bem ou do mal que praticou e não pela sua salvação.

Sua salvação talvez não será mencionada, quando ele se apresentar diante do tribunal de Deus; porém, os seus maus feitos ou o bem que praticou em nome do Senhor virão à luz. “Ao SENHOR pertence a salvação” e o homem, portanto, não pode ser responsável por aquilo que não lhe pertence. Mas todo homem deve responder diante do tribunal de Deus pela sua conduta individual.

Uma vez que admitamos a cooperação do homem na conversão e na sua justificação, não haverá paz de consciência. A questão sempre será: O quanto eu tenho que fazer? No entanto, o testemunho claro da Escritura, e é nisto que eu creio, que a salvação dos pecadores depende exclusivamente de Deus.

O evangelho bíblico está centralizado em Deus, honra a Deus e abençoa os pecadores com uma mensagem de esperança.

 

“Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece” (Romanos 9:16)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Voltar